27 de novembro de 2013

Me fui
Me fugi
Me senti
Um eterno fugitivo
Fui de mim.

Memórias de alguém com asas

Disseram-me ao nascer:
Chore!
Quando chorei, deram-me alimento.

Mandaram-me ao andar:
Corre!
Quando corri tropecei.

Puxaram-me ao cair:
Levante-se!
Quando levantei, quis voar.

Prenderam-me ao descobrir:
Não vá!
Quando esperei, era tarde

Remendaram-me ao perceber:
E agora?
Quando fui, nunca mais voltei.

Odinista

22 de novembro de 2013

Vermelho

Cor do sangue
Cor da vida
A carne mal-vivida

Da boca, do batom
Do fato escorrido

Do vestido de seda
Da festa que infesta
O salão de vermelho.

Cor dos sentimentos
Que vem de dentro
Sempre constrangidos

Dos olhos que denunciam
Escarlate cintilam
De longe
Nunca esconde.

Minha cor preferida.

Odinista

      Guardamos caixas, esperando para que nela caiba algo, por mais inútil que seja. Guardamos tanto, que no final, assustamos ao perceber que somos todos vasos, vazios numa eterna espera por conteúdos.

     São as embalagens da vida, que revestimos toda manhã a própria embalagem que somos. O revestimento que impermeia chuva, amor, afeto e tudo mais que nos danifique. É simplesmente um descompasso, teremos de escolher todos os dias entre: Nos revestir, nos preencher ou apenas nos colecionar, no fundo de uma gaveta, a espera de um copo que estará sempre meio vazio.

Odinista

Considerações finais


Um delírio...
Discorrido da batida
Contra as barras da gaiola.
Depois de sóbrio, é doloroso
Ver que o sonho era tão bonito.
Foi mais um vulto que vi
Uma canção que ouvi
De felizes livres pássaros
Que passaram e nem acenei.
Loucura a minha pensar
Que queriam os céus
Minhas asas quebradas
(...)
Foi tudo uma ilusão feliz.

Odinista

20 de novembro de 2013

'Sozinho'
Não gosto desta palavra
É tão diminutivo
Tão insignificante
Mal parece perturbador
Palavra perfeita pra esconder a solidão.

4 de novembro de 2013

Inútil,
a cova
que me encova
sob a terra.
Pois me pisou tanto
sem mesmo
estar morta.

Nudez



Poros escancarados
suam poesias.
As vestes já não mais
cobrem minha sensatez
não censuram-me ideias
não protegem-me do frio.
Pois não veste-se por dentro
do frio de dentro
que venta
que cava e enterra.
Dores vomitam poemas.
Os pés já não pisam na terra
a terra é quem nos pisa.
A carne e o esqueleto se encarregam
de carregar a alma sofrida
que mais poderia levar
uma manta fratricida?
Da carne os vermes se encarregam
os ossos o diabo rói
que será da alma
que aos poucos o mundo destrói?
Se recolhem, aqueles oprimidos febris
tecendo vestes sempre iguais
envergonhados do eterno despir.
A eles são dados,
cordas e forcas
para que bordem internos
seus próprios pecados. 

Odinista

3 de novembro de 2013

Carrasco




O silêncio é a canção da morte.
A tatuagem da condenação
traçada à laços de dor
pintam-no no âmago
dos tolos cegos que amam.
[silêncio]
O rei dos ladrões
está sentado sozinho 
em um trono usurpado
e o bobo da corte
com um sorriso desenhado
não ri…
O castelo perfeito
esvaiu-se em lágrimas
preso às lendas;
e os fantasmas proeminentes
inebriam dos restos
de um conto desencantado.
[silêncio]
E no vime tarjado de sangue
é oferecido o pão remanescente
das mesmas mãos 
que torturam
que cortam
que enforcam.
E o carrasco covarde, afoito
diante do monstro que é
foge da quimera que se tornou
e abraça o prazer 
do desespero alheio.
O desespero e pavor silenciosos
das mudas melodias
das piores sinfonias.
do silêncio.

Odinista


"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."
__Martin Luther King