16 de agosto de 2013

Desalforria



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Havia uma presença no final do salão,
nada menos que um fantasma escondido.
Contentava-se com ensaios narrados;
em sua mente, cessavam bravos grunhidos.

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Ressurgiu cinéreo um ser que morte provou.
Silencioso, o coração no peito esquecido
até por uma singela nota ser atingido;
neste mesmo acaso, de vida o transbordou.

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Pesadelos, proeminentes outrora de dor
em seu estômago jaziam borboletas
... que viraram vinagre,
e o fizeram querer vomitar 
teu lúgubre horror.

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Fantasma do salão, doente assim
já quis tocar violinos e piano
e desgarrar-se de um músico platônico,
a quem lhe deve o riso.
Provar da própria música
a derradeira sinfonia
derreado, sedento por alforria.

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Fantasma infame, com a aura florida
a melancolia apodreceu malevolente;
no canto, imitando a singela melodia
cantando, gritando rangeres de dente.

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Mas pobre alma demente
não podes cantar hinos de amor.
Procurando borboletas que vivem
à sombra de seu senhor.

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Mas num profundo silêncio
a alegria emudeceu,
num eterno labirinto.
Prostrou-se ao chão o rosto ladino
ao som do caos adormeceu.

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As mãos do músico compadeceram
esculpidas junto a ele morto
e a felicidade inocente se exauriu.
Pobre alma, morreu de novo.


Odinista

11 de agosto de 2013

Saudades

Sinto saudades 
de olhar no espelho
e ter algo para olhar.
Algo além de olhos negros
e opacos.
Sinto saudades
de olhar para fora
e reconhecer o calor do sol.
Algo além da luz falsa.
Sinto saudades
de olhar no papel
e saber o que escrever.
Algo além de lamentações
intermináveis.
Mas não sinto saudades
de quem eu era,
ainda que não tenha rugas
que me denunciem.
Nem idade para dizer
o que foi certo.
Mas o tempo é...,
já foi. E ainda virá.
Não pediria pouca idade
se com ela tivesse que lidar;
perder o pouco que consegui;
a única coisa que ainda
da vida posso levar.
Não sinto saudades
dos que se foram,
pois nunca morrerão
nas memórias manchadas.
Além de pena por aqueles
que ainda virão.
A saudade
é inconsciente e irônica,
as vezes a sentimos
sem perceber,
as vezes iludimos
querendo demais.


Odinista

2 de agosto de 2013

Odinista


               "Cuidado leitor, ao voltar esta página!
                Aqui se dissipa o mundo visionário e platônico.
                       Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica."
                                          — Álvares de Azevedo


    Primeiramente, eu gostaria de informar a mudança de URL do meu blog embora eu ainda a tenha em domínio. Não posso dizer com convicção que abandonei o pseudônimo de 'Exorcista', entretanto estarei  tomando o pseudo 'Odinista' como principal nas autorias, não excluindo meus demais. O motivo de tal atitude deve-se ao fato de que "o mundo platônico e visionário" tenha sido deixados para trás. Várias coisas que eram necessárias exorcizar já não fazem mais parte da minha vida.

    Talvez um pedaço da negritude que existia em mim tenha se dissipado. Assim como a outra face da moeda, ou os polos de uma pilha. É hora de fechar as cortinas para Calibã e deixar que Ariel prossiga com o próximo ato; contudo, é a mesma peça, com os mesmos personagens e a mesma história. Mas agora a plateia tem a chance de torcer para que a trama não se desenrole em uma tragédia, e no final os atores terem a cortesia de seus aplausos.

Odinista